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Temos que ouvir as meninas para prevenir a gravidez na adolescência

Sylvia e menina

Por Sylvia Siqueira Campos, diretora do MIRIM Brasil

Se eu tivesse o poder, erradicaria a gravidez na adolescência agora! Faria isso de forma honesta, carinhosa e respeitosa com as meninas. Ou seja, através da educação sobre sexualidade, saúde e planejamento de vida. Tudo o que a ministra não fez, não faz e nem fará. Para esse governo desmantelado, o que importa é zunzunzum vazio e antiético sobre costumes.

Não sei vocês, mas eu não vi nenhuma campanha. Assisti aos 30 minutos da sessão de lançamento de uma ideia, um vídeo e uma peça gráfica. Nenhum material foi distribuído. Ainda não há plano para disseminar a campanha. Vi e ouvi a ministra agradecer com ironia à mídia pelo trabalho prévio de divulgação da ideia. Ela ainda frisou que a imprensa adiantou o trabalho, pois o período não era propício. Desde 2018, a fórmula é sempre a mesma: vivemos olhando vitrines e esperando a próxima bomba. Sim, é um ambiente bélico. E a gente precisa usar outras estratégias que comuniquem mais e melhor com o maior número de pessoas sobre o mundo que a gente defende.

Aqui para mim está o ponto de virada: aprofundar o debate sobre prevenção da gravidez na adolescência! Estamos nos debatendo no raso. Um governo ético assume, publicamente, as causas da gravidez na infância e adolescência. Se apenas mostra os números do pós, ele mascara as diversas violências cometidas contra as meninas, inclusive a sua negligência ou mesmo conivência com uma cultura que vê o corpo de meninas e mulheres como objeto de desejo.

A gente quer conversar e refletir sobre a gravidez na adolescência ouvindo primeiro a voz da menina. Colocar a vida dela como ponto de partida é essencial para entender as dinâmicas sociais que ocasionam a gravidez. Ao longo do meu engajamento no MIRIM, tenho tido contato com diversas adolescentes grávidas, ou já mães, e suas famílias. Entender o contexto da gravidez na infância e adolescência nos leva a identificar o abuso e a exploração sexual como causas. Também veremos que os ambientes em que elas vivem são também onde a proteção integral do Estado é falha, a família não tem estrutura e existe falta de perspectiva de vida.

Elas querem continuar estudando: leia reportagem especial produzida pelo MIRIM sobre a relação de adolescentes grávidas e jovens mães com a educação

Segundo o Ministério da Saúde, em 2018, o Disque 100 registrou cerca de 70 mil casos de violência sexual contra criança e adolescente. Desses, 42% das crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual são vítimas recorrentes. Dados de 2018, publicados pela Folha de São Paulo e obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, revelam que 18% das pessoas vítimas de estupro têm até 5 anos, 22% têm entre 6 e 11 anos. Pasmem, 68% dessas agressões ocorrem em casa. No ambiente onde ela, a criança, deveria receber cuidados para se desenvolver de forma segura, saudável e feliz. Estima-se que o número real está longe de ser captado pelo Disque 100, pois a população não se sente segura com a denúncia, mas, antes disso, as crianças, muitas vezes, não conseguem falar sobre o que aconteceu, pois são coagidas e, quando falam, não acreditam nela.

Não há uma só atividade de educação em direitos no MIRIM, um ambiente seguro, que a gente não receba uma denúncia, um desabafo, um pedido de ajuda. Quando é o caso da menina ter engravidado numa relação com o namorado, ela não se sente acolhida nos serviços públicos de saúde, nem nos privados (de baixo custo). A fala sempre é de repreensão. Na escola? Mais repreensão. Será mesmo que esse debate raso da abstinência vai resolver numa sociedade violenta como a nossa? Não, não resolve.

A gente vive num estrutura de tabus enquanto meninas estão sendo violentadas atrás das paredes. Uma sociedade conservadora alimenta essa violência. A melhor forma de cuidar, de novo afirmo, é colocar a voz da menina como ponto de partida para a solução. E digo mais: as vozes das meninas, entendendo como raça e classe atenuam as violências e a gravidez na adolescência. Uma sociedade será melhor se as normas sociais forem transformadas. Essa transformação precisa vir pela educação. Uma educação que tem parte importante na escola, ensinando as novas gerações sobre sexualidade e relações de gênero saudáveis. Mas também passa pela ética do governo em parar de ser negligente, punir abusadores e aprimorar suas políticas públicas de forma intersetorial para quebrar qualquer tabu que impeça as meninas de viverem a vida de forma segura, saudável e feliz.

Paradox Zero